sexta-feira, 25 de julho de 2008

Hora de desfilar...


Sempre chega a hora de entrar na avenida...
Não posso mais evitar...
Ela quer saber...
Ela me perguntou...
Depois do post "Longe do que sonhei ", Maria José falou:

"Você surgiu agora, tão inesperada, para me comover, inexpressavelmente
eu não sei o que dizer, tamanha a minha perplexidade..."

Eu respondo:
Perplexidade Maria??
Você não sabia que causava sensações nas pessoas que te ouviam?
Ah...Você sabia...
Maria José continuou:

"Onde você estava?
De onde você veio?
Por que você surgiu assim na minha vida agora?
Quando você me viu?
Quantas vezes falamos? O que eu lhe disse?
Como sabe de mim?
São doces as lembranças de vocês ,mas eu não me lembro a época, qual era aquela minha fase de vida, quantas vezes eu fui lá, e quais as nossas conversas.
Não me lembro de convivência nossa, que pudesse lhe fornecer os dados que você me expressou.
Isso me constrange e entristece, nesta altura, desencadeando confusão de ideias, um súbto de sensações contrastantes com o meu jeito nato de ser..."

Ahh... Maria José... mulher e homem...
Vou desfilar pra você...
Quando eu nasci... fui a primeira...primogênita...
Eu era uma criança mulher no meio de adultos e jovens...homens e mulheres...
E você estava lá...
Já tinha se mudado pra cidade grande e voltava pra cidade apertada...para contar suas histórias...
Eu vi as pessoas pararem pra te ouvir...
Eu poderia ter ido brincar...dormir...
Mas é que eu nasci vermelha...
Então eu era aquela criança...no meio dos adultos... aquela boneca...
Eu estava sempre no colo de alguém...os adultos ainda acham que crianças são bonecos...
Mas eu era uma criança acostumada com o mundo "adulto"...eu tinha nascido entre eles...eu já conhecia...as vozes...os tons...
Foi assim que eu te conheci Maria...
Foi te escutando...disfarçada de boneca...
Conheci você também por meio dos seus filhos...
Ahh... os seus filhos...a sua multiplicação...
Dois jovens de pele marrom e olhos amarelos... dois felinos encantadores...
Ah...os seus filhos entravam e saiam da minha casa nos dias de festas...
As moças ficavam enlouquecidas com o seu filho felino macho...encantadas com a pele marrom e os olhos amarelos...
Mas quem sentava no colo dele era eu...porque eu era a criança...eu era a boneca
Mal sabia ele que eu já sabia o que já provocava naquelas mulheres...
Vi a sua filha felino fêmea como se via um camaleão...me pergunto até hoje:
Quantos cabelos ela já teve ornamentando aquela pele marrom?
Quantos homens a amaram Maria?
Eu fui em um dos seus casamentos e tive a oportunidade de vê-la entrar na igreja como uma deusa hip...
Eu vi suas lágrimas e inquietude ao lado do homem que contribuiu para a fecundação desse par de felinos...
Eu caminhei do seu lado esse dia Maria...ouvi suas palavras...
Eu já chorei com seu filho pela morte do meu tio...amigo dele Maria
Ele me arrumou um emprego e eu aprendi que existem almas atrás das roupas...
Eu sempre te vi chegar de carro no meio da árvores...
Mas eu nunca te vi comer ...nem beber...
Eu só te vi falar... eu só te ouvi falar...
Desde a época que eu era uma criança disfarçada de boneca no colo das pessoas adultas...
Eu Maria José...
Sou a mistura improvável daquilo que não se mistura...
Quando criança...me disfarçava de boneca...
Agora adulta...
Não tenho como me disfarçar...
Por isso estou aqui...

Continua no próximo post...
Fernanda Matos

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