quarta-feira, 30 de julho de 2008

Eu queria...


Ser música...

Invisível...

Mas presente...

A maior de todas as presenças...

A presença interior...

A música ouvida...

Dançada...

Se eu fosse música...

Eu dançaria todas as noites...

Sempre tem alguém dançando...

Eu também me alegraria...

Choraria...

Perderia e ganharia amores todos os dias...

Estaria nas crianças...

Nos adultos...

Nos velhos...

Nos fetos...

Nos vivos...

Nos mortos...

Embalaria noites de amor...

Olhares desejosos...

Corpos frenéticos...

Ah... estaria na mémoria...

Da carne ...

Do pensamento...

Estaria no mais vazio palácio...

E no mais cheio dos barracos...

Na rua...

No sol...

No mar...

Eu estaria no tempo...da lua

Não precisaria explicar...

Seria a própria explicação...

Justificaria...

Não faria escolhas...

Seria escolhida...

E participaria da vida...

Eu seria o grito dos escravos...

Dormiria com Chico Buarque...

Teria milhões de amigos...

Lembrada por ser boa...

E esquecida por ser triste...

Mas eu estaria presente...

Seria homem e mulher...

Se eu fosse música eu visitaria Maria José...

Mas não sou...
Fernanda Matos


terça-feira, 29 de julho de 2008

Hoje é dia de novo...

É que ficou incompleto...
Ele é listrado...
Simétrico
Eu sou elíptica
Centro e bordas...
Ele é retilíneo
E nós somos feitos da mesma mistura improvável daquilo que não se mistura
E se misturou...em nós
Eu o conheço...
Ele nasceu listrado
Eu vermelha
Ele anda em linha reta
E eu vivo em círculos
Ele me conhece
Idas e vindas...centro e bordas
Ele caminha sempre em frente...
Linha reta...
Vai!...
Eu ficarei dando voltas...vermelhas
Esperando...
Quando ele se for... com suas listras... linhas... retas...

Fernanda Matos

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Hoje é dia ...


Ele sabe porque eu calço uma bota...

Não é à toa que isso acontece...

Na verdade não é à toa que nada acontece...

Mas ele sabe quando eu calço uma bota...

Ele sabe quando eu desfilo...

Ou quando eu amo...

Ele me conhece...

Se ele gosta do que conhece...

Hoje menos que ontem...

Eu também...

Mas ele sabe...

Tudo??

Não...

Muito...

Sim ...

Tudo ninguém sabe...

Nem vai saber...

Nem eu...

Mas ele

Ahh ele sabe quando eu calço uma bota...

Sabe onde eu vou pisar...

E sabe que deixarei marcas...
Boas ou ruins depende do chão que piso e pisarei...

Sempre que calço botas...

Eu piso...e deixo marcas...

Ele sabe...
Ele é simétrico...listrado.


(Maria josé está me confundido...acho que ela está cansada...
Longe da pátria...longe do amor...
Espero que seja o próximo post...)
Fernanda Matos

sábado, 26 de julho de 2008

Eu sabia que ele era tequila...

José Cuervo...
É o meu amigo tequila...
Chega a uma certa altura da embriagues...
Que todos começam a criticar...
Ninguém quer mais a sua companhia...
Você vira piada...
Ninguém se pergunta...porque chegamos até ali... na vida
Naquela altura do porre... da vida
Ninguém nos pergunta de onde tiramos tanta força...
Para continuar...
Ele permanece lá...
O porre acaba ficando chato...a vida também...
Pros outros
Ele não me critica...
E quando eu sumo e volto...
Ele não reclama...
Está ali... pra mim...na vida
Aguns podem até achar que ele é desnecessário...
Mas necessito dele...
Meu amigo José Cuervo...
Coitados dos que acham que tequila derruba...
O meu amigo me levanta...
Tem gente que não vê...
A amizade fundamental entre uma mulher e José Cuervo...
Meu amigo...
Eu sabia que ele era tequila...
Eu sentia...


Fernanda Matos

O desfile foi um fracasso...

Entrar na avenida não é fácil...
Eu sei...
O medo é estonteante...
Nos engana ...e faz seguir...
Aí desfilamos...
E o olhar do outro não é agradável...
Ele...o outro quer se enxergar no desfile...
Aí não se enxerga...
Vira fracasso...
Pra quem desfila?
Pra quem olha?
A preparação é intensa...
Coração...nervos ...pernas...pele...mãos...
Sentimentos e personagens...
Ahh...os personagens...
As vezes agradam... as vezes não...
Os personagens sofrem...tem sentimentos ...
Coração...histórias...
Eles acreditam existir...
Por isso desfilam...
Em mim...
Em vocês...
Aqui...

...o desfile foi um fracasso...menos pra Maria José...


Vermelha.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Hora de desfilar...


Sempre chega a hora de entrar na avenida...
Não posso mais evitar...
Ela quer saber...
Ela me perguntou...
Depois do post "Longe do que sonhei ", Maria José falou:

"Você surgiu agora, tão inesperada, para me comover, inexpressavelmente
eu não sei o que dizer, tamanha a minha perplexidade..."

Eu respondo:
Perplexidade Maria??
Você não sabia que causava sensações nas pessoas que te ouviam?
Ah...Você sabia...
Maria José continuou:

"Onde você estava?
De onde você veio?
Por que você surgiu assim na minha vida agora?
Quando você me viu?
Quantas vezes falamos? O que eu lhe disse?
Como sabe de mim?
São doces as lembranças de vocês ,mas eu não me lembro a época, qual era aquela minha fase de vida, quantas vezes eu fui lá, e quais as nossas conversas.
Não me lembro de convivência nossa, que pudesse lhe fornecer os dados que você me expressou.
Isso me constrange e entristece, nesta altura, desencadeando confusão de ideias, um súbto de sensações contrastantes com o meu jeito nato de ser..."

Ahh... Maria José... mulher e homem...
Vou desfilar pra você...
Quando eu nasci... fui a primeira...primogênita...
Eu era uma criança mulher no meio de adultos e jovens...homens e mulheres...
E você estava lá...
Já tinha se mudado pra cidade grande e voltava pra cidade apertada...para contar suas histórias...
Eu vi as pessoas pararem pra te ouvir...
Eu poderia ter ido brincar...dormir...
Mas é que eu nasci vermelha...
Então eu era aquela criança...no meio dos adultos... aquela boneca...
Eu estava sempre no colo de alguém...os adultos ainda acham que crianças são bonecos...
Mas eu era uma criança acostumada com o mundo "adulto"...eu tinha nascido entre eles...eu já conhecia...as vozes...os tons...
Foi assim que eu te conheci Maria...
Foi te escutando...disfarçada de boneca...
Conheci você também por meio dos seus filhos...
Ahh... os seus filhos...a sua multiplicação...
Dois jovens de pele marrom e olhos amarelos... dois felinos encantadores...
Ah...os seus filhos entravam e saiam da minha casa nos dias de festas...
As moças ficavam enlouquecidas com o seu filho felino macho...encantadas com a pele marrom e os olhos amarelos...
Mas quem sentava no colo dele era eu...porque eu era a criança...eu era a boneca
Mal sabia ele que eu já sabia o que já provocava naquelas mulheres...
Vi a sua filha felino fêmea como se via um camaleão...me pergunto até hoje:
Quantos cabelos ela já teve ornamentando aquela pele marrom?
Quantos homens a amaram Maria?
Eu fui em um dos seus casamentos e tive a oportunidade de vê-la entrar na igreja como uma deusa hip...
Eu vi suas lágrimas e inquietude ao lado do homem que contribuiu para a fecundação desse par de felinos...
Eu caminhei do seu lado esse dia Maria...ouvi suas palavras...
Eu já chorei com seu filho pela morte do meu tio...amigo dele Maria
Ele me arrumou um emprego e eu aprendi que existem almas atrás das roupas...
Eu sempre te vi chegar de carro no meio da árvores...
Mas eu nunca te vi comer ...nem beber...
Eu só te vi falar... eu só te ouvi falar...
Desde a época que eu era uma criança disfarçada de boneca no colo das pessoas adultas...
Eu Maria José...
Sou a mistura improvável daquilo que não se mistura...
Quando criança...me disfarçava de boneca...
Agora adulta...
Não tenho como me disfarçar...
Por isso estou aqui...

Continua no próximo post...
Fernanda Matos

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Ela não foi pra Bonfim...

Foi um certo ultraje...
Mas a verdade é que ela não foi pra Bonfim...
Ela é assim "ausente" "presente"
Pra mim foi um presente... desses que nem precisamos e mesmo assim ganhamos e se torna essencial...
Eu, já achava que já tava bom...suficiente...não precisava...
Porque sempre fui assim...tem coisas pra mim que são desnecessárias!!!
Pra que tanta conversa...desnecessário esse tom, desnecessário ter ido...
Ahh... os erros
Ainda bem que eles existem e que nós os cometemos...
Eu cometi, a conheci e pensei...Desnecessário!...
Afinal eu já tinha tantos e tão importantes e diferentes e sufucientes...já tinha até os desnecessários...
Já os tinha de todas as cores e raças e tamanhos e gêneros e pesos e idades e cabeças e rítmos...
Mas não adiantou...
Eu a conheci...
Conheci a cor, a raça, a história,o gênero e o gênio, o samba, as palavras, os cigarros, o amor, as lágrimas e as gargalhadas, os palavrões, as frases... os posts...
Eu a conheci e foi inevitável...
Ela é daquelas que faz parte de outro tipo de cores...
Ela é cor de Mel...
É mais real... dá pra pegar, sentir... discutir, e até degustar
E eu burra...tão burra de tão vermelha...
Pude achar que mel não é necessário...
Imaginem uma vida sem mel...
Imaginem escrever sem essa palavra que tem tantos significados...
Mas a verdade é que ela não foi pra Bonfim...
E Bonfim que é tão linda... ficou sem mel...
Isso é um Ultraje com a cidade!

AH! Maria josé não tem fim...
Foi só um parênteses e outros virão...

VERMELHA.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Longe do que Sonhei...

Ela é uma mulher... um homem também.
Sempre foi assim, nasceu homem e mulher e o seu nome prova - MARIA JOSÉ
Homem e mulher...
Maria amou, viveu, pariu...
José,brigou,comeu,criou os filhos que Maria pariu...
Ela tem infinitas histórias, viveu e viverá infinitamente nas pessoas que a viram um dia e que ouviram suas narrações FANTÁSTICAS, porque Maria e suas palavras não têm fim...
Quando ela chegava, todos já sabiam... o mundo parava para escutá-la...
Ninguém conseguia fazer mais nada...
Ela(eles) Maria José, tinham esse poder...parar o mundo com suas palavras...
E o mundo é pequeno para Maria José... a sua cidade natal foi ficando insuportavelmente apertada , parecia uma miniatura diante de tantas histórias, entonações e rítmos.
Acho que Maria pensou...e trocou sua cidade natal pelas palavras ...pelas histórias que ainda ia contar e naquela cidade Maria José já tinha contado todas as histórias...
Então ela se foi... deixou família...amigos, beijos...
E foi atrás de sonhos ou palavras ...
Maria é pequena...
José é grande...
Então ela se mudou pra cidade grande... Ahh , lá Maria se encontrou... tantas palavras, tantas histórias...ritmos e olhares diferentes...
Maria se esbaldou... José...
Ahh...esse trabalhou.
Na cidade grande ela se multiplicou e multiplicou...amores...dinheiro...sexo...conhecimento e palavras muitas palavras...
Maria José então voltava , lá pra aquela cidade e falava... e contava histórias e o mundo parava...
Mas, Maria José não tem fim...
E a cidade grande ficou pequena...insuportavelmente apertada.
Maria José então foi embora...atrás de novas palavras com outros significados e rítmos e se mudou de país...
Ahh Maria José... mais histórias...
Mas como ela vai parar o nosso mundo aqui? Ela está tão longe?
Nesse caso eu me ofereci...
Me conte Maria José...me conte...ensina-me...
Que eu tentarei parar o mundo aqui...
Ela começou assim...

"Nesta manha de 23 de julho de 2008, separada fisicamente pela distância, alem do mar, sozinha no meu quarto, longe do que sonhei..."

Continua no próximo post...

Vermelha.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Onde ela está ??

Ela era linda ...
Diferente de mim, de nós, porque tinha a outra também: "a mística, a zen, a colorida", eu sempre fui "eu", a vermelha...ela era "cor de rosa"...uma linda menina cor de rosa...
Ela tinha pai e mãe, tinha o mar...o samba, tudo dentro dela sabe...tinha uma sensualidade...que se confundia com uma certa vulgaridade ( isso no olhar dos outros). Porque pra mim e pra outra, ela era mesmo engraçada... ahh como era...
Ela tinha sonhos de amor... sonhava com homens perfeitos e casamentos infinitos( ela era engraçada mesmo). Eu e a outra não...a nossa história sempre foi mais triste...mais real, menos rosa. A gente já não tinha pai por perto... e dos homens a gente sabia que só amar não era suficiente...
Ela acreditava só no amor e por isso ela só vivia esse lado da vida...
No começo a vermelha e a rosa não combinavam muito...essas cores não combinam...mas quem é o vermelho real...perto do sonho cor de rosa? É claro que a vermelha se rendeu. A colorida, ahh ... ela já era rosa também, sempre foi vermelha, azul, verde, amarela...então pra ela foi só reconhecimento...
Vermelha e rosa começaram a trocar e dançar na vida, a colorida sempre se vendo nas duas, quando não estava de outra cor...
E nessa mistura de cores e vidas...a rosa e a vermelha formaram um lindo par...dançando, nadando, tomando sol, chorando, sonhando... e o que elas fizeram de melhor foi sorrir...uma da outra, uma pra outra, eram lágrimas e gargalhadas vermelhas e rosas...
A vermelha começava a desbotar, o rosa ia lá e injetava a sua cor, os seus sonhos.E quando o rosa ficava claro, embranquecia, a vermelha salpicava sua cor viva e sangrenta e ela se alegrava, ficava forte e só fazia o bem...A colorida, estava colorindo a vida de outro...outros...mas sempre ali colorindo....
A cor de rosa, no pensamento da vermelha tinha nascido pra isso...Fazer o bem, ela era a cor mais bondosa que a vermelha tinha conhecido...era a cor do sonho e como enchia de sonhos a vida das pessoas...fez do seu sonho realidade... está pintando o mundo com uma linda criança...
Hoje eu não sei onde está a cor de rosa...a vermelha está desbotada... a colorida deixou suas cores com outras pessoas e tá sendo difícil recuperar, ela foi dando uma cor pra cada um e se esqueceu do seu colorido...quando ela viu tinha ficado só com as cores sóbrias...
Acho que a cor de rosa se foi...ela esqueceu de recarregar na vermelha...acho na verdade que não quis mais...quis mudar de cor...
Era tudo tão bonito...vermelho, rosa e colorido...
Agora está tudo indefinido...


Fernanda Matos.

Só tenho uma certeza!

É vermelho!
Sempre foi vermelho
Eu sou vermelha
Viva
Sangue
Carne
Palavras
Música
Pimentas
Atuação na vida...
Não sei o que é ser cor de rosa
Ou azul
Verde até me deixa feliz
Preto sim e branco também para dormir e sonhar
Amarelo só do sol...
Porque quando me olho...
Sou vermelha
Por dentro
Por fora
Pra mim
Pros outros...
Sou vermelha!

Vermelha.

Que isso...

Não consigo me dicidir...
Como dar um título aquilo que está em formação??
Talvez seja por isso que dar nomes ao que sentimos e vivemos seja tão difícil e tão errado.
Será que era amor mesmo??
Será que é amizade?
Será que é só sexo??
Será que é o fim da relação??
Será que o meu processo é de dar títulos...
A mim mesma...
Vou fazer uma pesquisa quem sabe...
Que títulos vocês me dão??
Como me chamariam...
Doida?Brava?? Fernanda??Instável?
Como eu me chamaria?
Com o que me identifico?
Somos também o olhar do outro...
Por isso a dúvida...
Que isso ???
Ainda não sei...


Fernanda Matos.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Não tenho como fugir...


Já tentei ignorar...

Abstrair...

Dormir...

Comer...

Mas...

Como um ato involuntário, sempre me pego pensando naquilo que foi escrito...

Naquilo que vai ser escrito...

No que vai ser lido...

E nas interpretações...reações...sensações...

Sempre que é espontâneo se torna bonito pra mim...

Mas quando é uma cobrança, fica chato, talvez como essas palavras...

As primeiras de uma exposição voluntária daquilo que está dentro de mim.

Ou muitas vezes daquilo que eu simplesmente quero mostrar...

Ou cutucar...

Instigar...

Envenenar...

Despertar...

Carinhar...

Meu compromisso aqui , é com a vida...

Com tudo que ela tem de bom e ruim,

De falso e verdadeiro.

Não pretendo ser uma novela e não me preocuparei com a coerência

E sim com aquilo que é sentido e escrito se assim tiver que ser

Escreverei da loucura e da sanidade de viver...

Prometo ser intensa, quando a vida me oferecer essa alternativa

Prometo também ser vulgar, cínica quando de repente me surpreender com aquilo que abomino

Porque vivo...

Serei correta

Louca

Mulher

Homem

Alegre

E imensamente triste

Serei música ...sempre

Serei palavras...

Porque não tenho como fugir...

Não mais...
Fernanda Matos